domingo, 15 de maio de 2011


VOU RETIRAR-ME

Vou retirar-me de cena
Perdi a vontade
Só quero meu troco
Não quer me dar?
Não tem?
Pode ficar!
Não importa
Amanhã não será outro dia
Vou descer do trem
É,
Mesmo andando.

Você vai fazê-lo parar?
Então, pare
Pare!
Quero descer
Me deixe passar

Nestes trilhos desfocados
Errei o caminho
Fiquei por muito tempo
Qual Hopper
A olhar a cidade
Pela janela do meu quarto

Não há vencedores
E os predadores
Já estão lambendo os beiços
Não há opção
A insanidade destrói a razão
O delírio é um escape
Mataram a pomba da paz

Perdi este jogo
Vou tirar meu time
Atear fogo no campo
E culpar os cristãos

Vou retirar-me de cena
Não faça cena
Continue na festa
Prove os pasteis

Pintarei um vigésimo andar
Subirei pelas escadas
Não há pressa
No trampolim da alegria
Vou mergulhar neste céu

PASSAM PASSOS,
PASSA O TEMPO
(Ao meu pai)

A um passo da ponte
Penso no compasso dos teus passos
Segurando firme a pequena mão suada.

Insegura menina desliza pela ponte.
Passos curtos, passos surdos,
Tempo passa.

O balanço da ponte,
O sussurro do vento.
Passos confusos, sentimentos difusos,
Crescem numa prece ao tempo.

Tempo, peço-te que não passes.

Passe o tempo de espera.
Passe o pranto da quimera.

Passos lentos, mãos entrelaçadas.
Penso:
Eternos passos na ponte
Ao passar do tempo.




PRINCESA GIULIA
(Para minha netinha)


Ocupando nossas vidas
Giulia, princesa/menina
Num faz-de-conta
Brinca, canta, faz sorrir
À alegria nos induz
Ilumina a existência
Clareia nossas sendas
Com seus olhinhos de luz

Vou contar um segredo
Pra quem quiser ouvir
No dia que Giulia nasceu
Eu voltei a sorrir




DOR
(Ao meu sobrinho, Herbert)

Entre árvores, flores e concretos
Passos lentos, sem som, pela estrada
Céu pintado de cinza engole o choro
Sufoca a dor de cada gente
Gente viva,
Há muito...
Morta

Entre lápides, cruzes e imagens
Choros, pranto, banham a dor
Dor do dia perdido
Dor do rancor reprimido
Suspiro sofrido de dor




NÃO ME PERGUNTES
(Para o meu sobrinho Herbert)

Não me perguntes por que estou indo embora
Nem por que não foi posta a mesa
Não me pergunte por que tantas flores
Nem “por quem dobram os sinos”
Não me pergunte por que tantas caras bonitas
Nem por que todas são tristes
Não me pergunte pelos músicos
Nem por quem canta o rouxinol
Não me pergunte por que o céu pintou-se de cinza
Nem por que as luzes se apagaram
Não me pergunte
Não tenho as respostas
Preciso ir embora
Tenho que lhe deixar pra trás



ERA UMA VEZ (Bailarinas)
[Para meu amigo e querido

poeta, Byra Dorneles]

“Eu quero!” Julia me pede
“Por quê?” Clara pergunta
E eu, vestido de avô,
Canto Aquarela pra elas,
Conto mais uma vez
E descubro que a fantasia
E uma dança da chuva,
Das bailarinas,
Com o gato de botas,
Príncipe e princesas,
Numa festa na lua.
Onde minhas meninas,
Com graça, me ensinam,
Que homem também chora,
Que o “faz de conta” é agora,
E viver é sempre:
“Era uma vez”.




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