Sol, chuva, dias, horas, Passam os tempos, passam os ventos, E a moça desbotada na janela Perde-se na linha do horizonte. Onde estendeu sua esperança, Seu desejo de ser mulher. Folhas caem, é outono, O frio do inverno já chegou. Congelando pensamentos, Sentimentos de pretextar um amanhã.Janela tosca, torta, turva, Moldura arcaica em arco; Íris dum olhar. Janela d’alma, olhar distante, Infinito inalcançável: Encontrar o amor. Moça tosca, na janela, desbotada, Estende no arco íris o futuro. Sol que entra janela aberta Dissolvendo anseios, Esquentando coração. Batem as horas, dia e noite. Moça desbotada Pinta os lábios de baton.
Corra e atravesse o tempo, a vida. Quem sabe o mundo seja generoso Não adianta lamentar O tempo não volta O passado é apenas uma lembrança Num guardanapo de papel amarrotado Ouça essa canção no silêncio da noite E pense, você sobreviveu. Só isso importa. Só isso importa. O seu anjo era apenas um sonho Anjos não voam mais Cuidam dos valores reais Fazem relatórios Digitam estatísticas Corra, atravesse o tempo, Quem sabe aquele Gabriel Que outrora, num balanço, Na praça, na concha, Cantou-lhe “o som do silêncio” Volte para lhe dizer: Não desista Vale a pena sonhar O sonho não acabou Todos mentem Acredite, é só esperar. Sonhe, sonhe, sonhe, Sonhe toda a esperança do mundo Acredite: a terra gira É mais um milagre.
Já estou mais do que convencida da tua falta de me querer Tudo bem! Não te quero também
teu gozo não sacia o meu Gozas nas entre linhas Enquanto eu Sou corredeira abaixo
Tua constante afirmação é pra convencer a quem?
Ti elegi o meu obscuro objeto de desejo Só pra compor os meus versos E para isso Faço chover Molho você Só pra brotar em mim estas palavras - Sem nexo ou complexo - Que necessito para existir
Não te ofendas Te uso sim Quantas vezes me der na telha.
Alimento minha alma poética Como parasita fosse Desta tua indiferença
Pobre de ti que não possui musa inspiradora Morres a cada dia Engasgado com tuas decepções que derramam, como ladrão
Tens o registro enferrujado Emperrado pela razão.
Gozo a expectativa de te ver todos os dias Com essa carinha de índio Sem tupã Que perdeu o 19 de abril
E,quando te vejo Acende em mim esse desejo De amar e não querer você Aí então Eu escrevo Eu escrevo Eu escrevo... já estou mais do que convencida da tua falta de me querer Tudo bem! Não te quero também
... numa contra dança com o noivo da quadrilha; na passeata de agosto na Rio Branco; na fila quilométrica do Metrô do Rio, podia ter acontecido a qualquer hora do dia.
Podia ter sido a qualquer hora do dia, mas foi justamente à noite, quando mariposas embriagadas de néon, espatifam-se nas vidraças do tempo. Quando as fêmeas são ainda mais frágeis, nas longas horas perdidas, desamparadas do amor.
Mas foi justamente à noite, quando os lençóis estão frios, a madrugada vem sem te esperar dormir. E o leite morno do delírio seu inunda a fria cama sem Orfeu.
... na Cinelândia, rolando "É tudo verdade"; virando o ano em Copacabana; no Maison de France vendo Bacamarte, podia ter acontecido a qualquer hora do dia.
Podia ter sido a qualquer hora do dia, mas foi justamente à noite, na esquina da madrugada, quando o cantador sai à caça das presas oferecidas...
NÁDIA DE SOUZA. Escritora,artista plástica, socióloga, professora pós graduada em História da África e do Negro no Brasil. Nasceu no bairro de Santa Teresa, na cidade do Rio de Janeiro. Trabalha na área de educação, lecionando História e Sociologia. Autora, premiada, de livros infanto-juvenis, contos e poesias. Seu principal trabalho como artista plástica são pinturas em acrílico e confecções de cartões postais.