domingo, 15 de maio de 2011

ARCO ÍRIS FUTURO

Sol, chuva, dias, horas,

Passam os tempos, passam os ventos,
E a moça desbotada na janela
Perde-se na linha do horizonte.

Onde estendeu sua esperança,
Seu desejo de ser mulher.
Folhas caem, é outono,
O frio do inverno já chegou.
Congelando pensamentos,
Sentimentos de pretextar um amanhã. Janela tosca, torta, turva,
Moldura arcaica em arco;
Íris dum olhar.
Janela d’alma, olhar distante,
Infinito inalcançável:
Encontrar o amor.
Moça tosca, na janela, desbotada,
Estende no arco íris o futuro.
Sol que entra janela aberta
Dissolvendo anseios,
Esquentando coração.
Batem as horas, dia e noite.
Moça desbotada
Pinta os lábios de baton.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

MILAGRE



Corra e atravesse o tempo, a vida.
Quem sabe o mundo seja generoso
Não adianta lamentar
O tempo não volta
O passado é apenas uma lembrança
Num guardanapo de papel amarrotado
Ouça essa canção no silêncio da noite
E pense, você sobreviveu.
Só isso importa. Só isso importa.
O seu anjo era apenas um sonho
Anjos não voam mais
Cuidam dos valores reais
Fazem relatórios
Digitam estatísticas
Corra, atravesse o tempo,
Quem sabe aquele Gabriel
Que outrora, num balanço,
Na praça, na concha,
Cantou-lhe “o som do silêncio”
Volte para lhe dizer: Não desista
Vale a pena sonhar
O sonho não acabou
Todos mentem
Acredite, é só esperar.
Sonhe, sonhe, sonhe,
Sonhe toda a esperança do mundo
Acredite: a terra gira
É mais um milagre.


AS RESPOSTAS NÃO ESTÃO NO VENTO

















AS RESPOSTAS NÃO ESTÃO NO VENTO


Qual o som do silêncio?

Qual a cor da morte?

Qual o cheiro da dor?

E “as respostas estão no vento

Na negra noite sem lua

Em choros e perdas

O som absurdo da solidão

Digere o ácido da ausência

Tinge de vermelho os olhos

Degola soluços aprisionados

E a orfandade batendo à porta

Enquanto o mundo perde a forma

E os loucos dançam sem chuva

Baudelaire deposita suas flores

No caixão vazio da louca.

Que grita se esperneia e sofre.

Qual o som do silêncio?

Qual a cor da morte?

Qual o cheiro da dor?

Não há ventos

Só um protótipo feminino

De Gregor Samsa.


PRESSÁGIO DE POE

PRESSÁGIO DE POE

Já é verão na janela

Em meu quarto,

Um eterno cinza

Habita em mim

Um dia atrás do outro

Um dia de cada vez

Só por hoje, só por hoje,

O relógio bate

Só por hoje, só por hoje,

Continuarei respirando

Só por hoje, só por hoje.

Esperarei Godot

Suportarei o vazio

Irei a lugar nenhum

Aguardarei o nada

Abafarei o soluço

Assustando o travesseiro

Na parede descarnada

Só por hoje, só por hoje,

O relógio bate

Só por hoje, só por hoje,

Bate meu coração

Um dia de cada vez

Um dia de cada vez

O presságio de Poe

Um dia de cada vez

Preenche o vazio do quarto

No aço gasto do espelho

Só por hoje, só por hoje,

Olharei meu rosto

Pela última vez




domingo, 8 de novembro de 2009


UMA LINDA MULHER

À uma linda mulher, deram-lhe um dia.

O dia em que mais de cem delas

Foram queimadas vivas

Quais bruxas de Salém.

Sem filhos, sem machos,

Sem ninguém.

Temos um dia, linda mulher!

Talvez para lembrarmos

Como somos necessárias

Nas vidas dos nossos homens

De serviçal a secretária,

Somos de tudo

Mães, esposas, amantes.

Temos um dia, mulher!

Vamos passar batom

Subir em nossos saltos

Preparar o café da manhã

Sair em defesa do pão

Que o diabo amassou

De cada dia

E todos os dias

Agradecer ao Senhor

E à noite, sempre estaremos

Leves e perfumadas

Nossas olheiras disfarçadas

A decepção mascarada

Num sorriso de carmim

Temos um dia, mulher!

Para nos acharmos importantes

Enxugar as lágrimas dos filhos

Limpar as marcas das amantes

Agradecer a Deus nossos homens.

Temos um dia, mulher!

O ano inteiro nos queimam

Dignidades, anseios e metas.

Jovens, velhas, feias e bonitas,

Colocadas em vitrines

Para serem as escolhidas

E terem como prêmio

Um banho de esperma.

Temos um dia, mulheres!

Porque somos minoria

E enquanto tivermos esse dia

Sentiremo-nos justiçadas

Calaremos as nossas falas

Daremos por término

As conquistas

Temos um dia. Nós mulheres!



A MAIOR DAS SAUDADES

É a saudade de mãe

Saudade do bebezinho chorão
Saudade dos primeiros passos
Do abraço na porta da escola
Que apertava meu coração

É saudade danada do que já cresceu
Que não vê mais a segurança do colo
Não carece, não quer proteção
Do ninho de onde nasceu

É saudade de mãe
Que erra querendo acertar
Bajula na hora da bronca
Bronqueia quando tem que afagar

A maior das saudades

E quando se constrói a ausência
Sem ponte, sem parapeito.
Se juntos, parecem distantes.
Distantes, um abismo de medos

A maior das saudades

É a saudade de cada um

Uns, a dor da perda maior.
Outro, do que não conheceu.
Pra mãe, do filho esperado,
O amor que não recebeu

A maior das saudades?
É a minha saudade de mãe.


sábado, 31 de maio de 2008

DESDÉM

Já estou mais do que convencida da tua falta de me querer
Tudo bem!
Não te quero também

teu gozo não sacia o meu
Gozas nas entre linhas
Enquanto eu
Sou corredeira abaixo

Tua constante afirmação é pra convencer a quem?

Ti elegi o meu obscuro objeto de desejo
Só pra compor os meus versos
E para isso
Faço chover
Molho você
Só pra brotar em mim estas palavras
- Sem nexo ou complexo -
Que necessito para existir

Não te ofendas
Te uso sim
Quantas vezes me der na telha.

Alimento minha alma poética
Como parasita fosse
Desta tua indiferença

Pobre de ti que não possui musa inspiradora
Morres a cada dia
Engasgado com tuas decepções
que derramam, como ladrão

Tens o registro enferrujado
Emperrado pela razão.

Gozo a expectativa de te ver todos os dias
Com essa carinha de índio
Sem tupã
Que perdeu o 19 de abril

E,quando te vejo
Acende em mim esse desejo
De amar e não querer você
Aí então
Eu escrevo
Eu escrevo
Eu escrevo...
já estou mais do que convencida da tua falta de me querer
Tudo bem!
Não te quero também


OCORRÊNCIA nº 2

... numa contra dança com o noivo da quadrilha;
na passeata de agosto na Rio Branco;
na fila quilométrica do Metrô do Rio,
podia ter acontecido a qualquer hora do dia.

Podia ter sido a qualquer hora do dia,
mas foi justamente à noite,
quando mariposas embriagadas de néon,
espatifam-se nas vidraças do tempo.
Quando as fêmeas são ainda mais frágeis,
nas longas horas perdidas,
desamparadas do amor.

Mas foi justamente à noite,
quando os lençóis estão frios,
a madrugada vem sem te esperar dormir.
E o leite morno do delírio seu
inunda a fria cama sem Orfeu.

... na Cinelândia, rolando "É tudo verdade";
virando o ano em Copacabana;
no Maison de France vendo Bacamarte,
podia ter acontecido a qualquer hora do dia.

Podia ter sido a qualquer hora do dia,
mas foi justamente à noite,
na esquina da madrugada,
quando o cantador sai à caça
das presas oferecidas...