domingo, 15 de maio de 2011


HISTÓRIA DE AMOR

Contemos uma história de amor Palavras digitadas sem reservas
Neste perfil por nós compartilhado
De mensagens postadas e secretas
Escrevamos uma história de amor
Quem sabe seu desfecho incerto
Um amor que grita em silêncio
E sobre o teclado suspira liberto
Não nos concebe nenhum entretanto Amor que se alastra em campo aberto
Avança pela noite em tons e bytes
Envolve nesta rede amantes ternos





MORMAÇO

Gemer de ventiladores, amadores do vento.

Mormaço do dia, da vida, da alma.

Dia cinzento e quente como asfalto

Um gato escondido no armário,

Mudo, censura a minha falta de tempo.

Ranger de porta desperta os sentidos

O mundo acordado reclama atenção

E eu, mormaço, nauseada de tudo,

Sonho com assaltos, medos, mortos,

Planto-me, qual árvore, frondosa solidão.

Qual ostra fora d’água

Ressecada, vazia de brilho.

Escrevo, vomito e expurgo,

Palavras, num mágico papel,

Em falenas virtuais me diluo.

O gato mudo,

Ainda escondido,

Censura minha falta de tempo.

VESTIDA DE SOL

Hoje me vesti pra você
Com brincos de princesa
Saia da cor do meu querer
De puro carmesim
Calcinha de renda
Com um toque de pureza
Pus perfume de jasmim
Hoje me arrumei pra você
Cada cacho do cabelo
Bem enrolado no espelho
Dei um toque de amor
Como cachos de uvas,
Gotas de chuva
Moldurando meu rubor
Hoje me aprontei pra você
Botei meias de seda
Sapatos de bailarina
Laços de fita num corpete de organdi
Invocando a esperança primeira
Vim pra dizer toda faceira
Não chore...
Mesmo que chova
Não chore...
Eu trouxe o sol pra você

Nádia de Souza


ARCO ÍRIS FUTURO

Sol, chuva, dias, horas,

Passam os tempos, passam os ventos,
E a moça desbotada na janela
Perde-se na linha do horizonte.

Onde estendeu sua esperança,
Seu desejo de ser mulher.
Folhas caem, é outono,
O frio do inverno já chegou.
Congelando pensamentos,
Sentimentos de pretextar um amanhã. Janela tosca, torta, turva,
Moldura arcaica em arco;
Íris dum olhar.
Janela d’alma, olhar distante,
Infinito inalcançável:
Encontrar o amor.
Moça tosca, na janela, desbotada,
Estende no arco íris o futuro.
Sol que entra janela aberta
Dissolvendo anseios,
Esquentando coração.
Batem as horas, dia e noite.
Moça desbotada
Pinta os lábios de baton.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

MILAGRE



Corra e atravesse o tempo, a vida.
Quem sabe o mundo seja generoso
Não adianta lamentar
O tempo não volta
O passado é apenas uma lembrança
Num guardanapo de papel amarrotado
Ouça essa canção no silêncio da noite
E pense, você sobreviveu.
Só isso importa. Só isso importa.
O seu anjo era apenas um sonho
Anjos não voam mais
Cuidam dos valores reais
Fazem relatórios
Digitam estatísticas
Corra, atravesse o tempo,
Quem sabe aquele Gabriel
Que outrora, num balanço,
Na praça, na concha,
Cantou-lhe “o som do silêncio”
Volte para lhe dizer: Não desista
Vale a pena sonhar
O sonho não acabou
Todos mentem
Acredite, é só esperar.
Sonhe, sonhe, sonhe,
Sonhe toda a esperança do mundo
Acredite: a terra gira
É mais um milagre.


AS RESPOSTAS NÃO ESTÃO NO VENTO

















AS RESPOSTAS NÃO ESTÃO NO VENTO


Qual o som do silêncio?

Qual a cor da morte?

Qual o cheiro da dor?

E “as respostas estão no vento”

Na negra noite sem lua

Em choros e perdas

O som absurdo da solidão

Digere o ácido da ausência

Tinge de vermelho os olhos

Degola soluços aprisionados

E a orfandade batendo à porta

Enquanto o mundo perde a forma

E os loucos dançam sem chuva

Baudelaire deposita suas flores

No caixão vazio da louca.

Que grita se esperneia e sofre.

Qual o som do silêncio?

Qual a cor da morte?

Qual o cheiro da dor?

Não há ventos

Só um protótipo feminino

De Gregor Samsa.


PRESSÁGIO DE POE

PRESSÁGIO DE POE

Já é verão na janela

Em meu quarto,

Um eterno cinza

Habita em mim

Um dia atrás do outro

Um dia de cada vez

Só por hoje, só por hoje,

O relógio bate

Só por hoje, só por hoje,

Continuarei respirando

Só por hoje, só por hoje.

Esperarei Godot

Suportarei o vazio

Irei a lugar nenhum

Aguardarei o nada

Abafarei o soluço

Assustando o travesseiro

Na parede descarnada

Só por hoje, só por hoje,

O relógio bate

Só por hoje, só por hoje,

Bate meu coração

Um dia de cada vez

Um dia de cada vez

O presságio de Poe

Um dia de cada vez

Preenche o vazio do quarto

No aço gasto do espelho

Só por hoje, só por hoje,

Olharei meu rosto

Pela última vez