domingo, 8 de novembro de 2009


UMA LINDA MULHER

À uma linda mulher, deram-lhe um dia.

O dia em que mais de cem delas

Foram queimadas vivas

Quais bruxas de Salém.

Sem filhos, sem machos,

Sem ninguém.

Temos um dia, linda mulher!

Talvez para lembrarmos

Como somos necessárias

Nas vidas dos nossos homens

De serviçal a secretária,

Somos de tudo

Mães, esposas, amantes.

Temos um dia, mulher!

Vamos passar batom

Subir em nossos saltos

Preparar o café da manhã

Sair em defesa do pão

Que o diabo amassou

De cada dia

E todos os dias

Agradecer ao Senhor

E à noite, sempre estaremos

Leves e perfumadas

Nossas olheiras disfarçadas

A decepção mascarada

Num sorriso de carmim

Temos um dia, mulher!

Para nos acharmos importantes

Enxugar as lágrimas dos filhos

Limpar as marcas das amantes

Agradecer a Deus nossos homens.

Temos um dia, mulher!

O ano inteiro nos queimam

Dignidades, anseios e metas.

Jovens, velhas, feias e bonitas,

Colocadas em vitrines

Para serem as escolhidas

E terem como prêmio

Um banho de esperma.

Temos um dia, mulheres!

Porque somos minoria

E enquanto tivermos esse dia

Sentiremo-nos justiçadas

Calaremos as nossas falas

Daremos por término

As conquistas

Temos um dia. Nós mulheres!



A MAIOR DAS SAUDADES

É a saudade de mãe

Saudade do bebezinho chorão
Saudade dos primeiros passos
Do abraço na porta da escola
Que apertava meu coração

É saudade danada do que já cresceu
Que não vê mais a segurança do colo
Não carece, não quer proteção
Do ninho de onde nasceu

É saudade de mãe
Que erra querendo acertar
Bajula na hora da bronca
Bronqueia quando tem que afagar

A maior das saudades

E quando se constrói a ausência
Sem ponte, sem parapeito.
Se juntos, parecem distantes.
Distantes, um abismo de medos

A maior das saudades

É a saudade de cada um

Uns, a dor da perda maior.
Outro, do que não conheceu.
Pra mãe, do filho esperado,
O amor que não recebeu

A maior das saudades?
É a minha saudade de mãe.


sábado, 31 de maio de 2008

DESDÉM

Já estou mais do que convencida da tua falta de me querer
Tudo bem!
Não te quero também

teu gozo não sacia o meu
Gozas nas entre linhas
Enquanto eu
Sou corredeira abaixo

Tua constante afirmação é pra convencer a quem?

Ti elegi o meu obscuro objeto de desejo
Só pra compor os meus versos
E para isso
Faço chover
Molho você
Só pra brotar em mim estas palavras
- Sem nexo ou complexo -
Que necessito para existir

Não te ofendas
Te uso sim
Quantas vezes me der na telha.

Alimento minha alma poética
Como parasita fosse
Desta tua indiferença

Pobre de ti que não possui musa inspiradora
Morres a cada dia
Engasgado com tuas decepções
que derramam, como ladrão

Tens o registro enferrujado
Emperrado pela razão.

Gozo a expectativa de te ver todos os dias
Com essa carinha de índio
Sem tupã
Que perdeu o 19 de abril

E,quando te vejo
Acende em mim esse desejo
De amar e não querer você
Aí então
Eu escrevo
Eu escrevo
Eu escrevo...
já estou mais do que convencida da tua falta de me querer
Tudo bem!
Não te quero também


OCORRÊNCIA nº 2

... numa contra dança com o noivo da quadrilha;
na passeata de agosto na Rio Branco;
na fila quilométrica do Metrô do Rio,
podia ter acontecido a qualquer hora do dia.

Podia ter sido a qualquer hora do dia,
mas foi justamente à noite,
quando mariposas embriagadas de néon,
espatifam-se nas vidraças do tempo.
Quando as fêmeas são ainda mais frágeis,
nas longas horas perdidas,
desamparadas do amor.

Mas foi justamente à noite,
quando os lençóis estão frios,
a madrugada vem sem te esperar dormir.
E o leite morno do delírio seu
inunda a fria cama sem Orfeu.

... na Cinelândia, rolando "É tudo verdade";
virando o ano em Copacabana;
no Maison de France vendo Bacamarte,
podia ter acontecido a qualquer hora do dia.

Podia ter sido a qualquer hora do dia,
mas foi justamente à noite,
na esquina da madrugada,
quando o cantador sai à caça
das presas oferecidas...

sábado, 17 de maio de 2008


QUEM VAI PARAR A CHUVA?


Mesmo que a chuva não pare

Vou dançar está canção: Je T'aime... Moi Non Plus

Ainda acredito no blues

E também não tenho nada a perder

Sei que o blues é mágico

E alguns homens são bons

Também fui tocada por esta fábula

E já fui a primeira felicidade do dia

(A amaldicionada sou eu)

Ingenuamente tentei amarrar o vento

E desejei algo pra esta noite

Colhi em mim a tempestade

Bati minha cabeça nas rochas

Vomitei palavras e sons

Alimentei sonhos, fantasias

Pensando que a canção era pra mim

Não importa

Mesmo que a chuva não pare

Vou dançar esta canção: Je T'aime... Moi Non Plus

Mesmo que não tenha sido feita por mim

Continuo acreditando no blues

E sei que és bom

(Sou eu a amaldiçoada)

Atraí a tempestade

Enfureci os deuses

Me apaixonei por Aquilon

Me acreditando felicidade

Bati nesta porta

Tentei ser bailarina

A garota mais bonita do baile

As luzes não estavam acesas

(Sou uma maldição)

Mesmo que a chuva não pare

Vou dançar esta canção: Je T'aime... Moi Non Plus

Não consigo parar

De tanta mágoa, virei água

Estou chovendo no ar

E mesmo que não pare

Vou dançar está canção: Je T'aime... Moi Non Plus

Desejar está noite

Acender as luzes do céu

Ofender os deuses do Olimpo

Raptar Aquilon pra terra do nunca

Para amá-lo uma única vez

Mesmo que a chuva não pare

Esta canção dançarei :

Je T'aime... Moi Non Plus

domingo, 30 de março de 2008

Vou retirar-me de ti
Só pra morrer um pouquinho
O meu cio não combina com o teu
Vou rolar nas pedras do cais
Qual louca gritar terra à vista
E lançar-me ao mar
Vou beber espumas
Do champanhe que não brindamos
Vou sangrar minhas entranhas
Na cova do lobo
E uivar até me ouvires
Vou entregar-me ao primeiro
Que esmolar minha atenção
E vou morrer
Morrer de amor para te humilhar
Envergonhar-te e calar-te
Apagar o teu sorriso menino
E torná-lo cretino
Para expurgar-te de mim