domingo, 15 de maio de 2011


DIA/NDIA/NOITE

Luzes densas que caem como gotas de sangue
Sobre a alma corroída...
É dia

Estrelas que cortam o brilho cego do olhar distante...
É noite

Caminho ermo de sensações nunca sentidas
Onde sons de buzinas passam mudos na calçada...
É dia

Trancar de portas, cerram-se as cortinas
Sobre os rostos mortos descarnados...
É noite

Cheiro ácido, caustico, do cigarro na xícara de café
Pela vidraça a sujeira dos espermas que não foram recolhidos...
É dia

Resto de sopa na tigela da mosca
Trilha sonora da vida fora do ar...
É noite.

O Outeiro sem glória toca os sinos
Mendigos banham-se em paris...
É dia

A prata da lua que mata
Revela a cobiça do louco...
É noite

E os fantasmas do passado tão presentes
Nos engolem, nos degolam, nos devoram dia e noite


JOGO

Sou a última da fila
Nunca a bola da vez
Sou rainha morta
Do tabuleiro xadrez






INSPIRAÇÂO

Fecharam minha janela
Minha fonte secou
Minha fome de palavras enfastiou-se
Perdi minha referências no shopping
Não sou mais poeta
Dessa vez não foi por engano
Tornei-me náusea desse desejo
Cantei meus versos pra outro cantador
Morreram-se os motivos
Fechei meus olhos para o teu sorriso
E quando a chuva caiu
lavou os poemas que restaram
Apagou da esquina os meus passos
Não mais falarei deste amor

DESDÉM

Já estou mais do que convencida
da tua falta de me querer
Tudo bem!
Não te quero também

teu gozo não sacia o meu
Gozas nas entre linhas
Enquanto eu
Sou corredeira abaixo

Tua constante afirmação é pra convencer a quem?

Ti elegi o meu obscuro objeto de desejo
Só pra compor os meus versos
E para isso
Faço chover
Molho você
Só pra brotar em mim estas palavras
- Sem nexo ou complexo -
Que necessito para existir

Não te ofendas
Te uso sim
Quantas vezes me der na telha.

Alimento minha alma poética
Como parasita fosse
Desta tua indiferença

Pobre de ti que não possui musa inspiradora
Morres a cada dia
Engasgado com tuas decepções
que derramam, como ladrão

Tens o registro enferrujado
Emperrado pela razão.

Gozo a expectativa de te ver todos os dias
Com essa carinha de índio
Sem tupã
Que perdeu o 19 de abril

E,quando te vejo
Acende em mim esse desejo
De amar e não querer você
Aí então
Eu escrevo
Eu escrevo
Eu escrevo...
já estou mais do que convencida da tua falta de me querer
Tudo bem!
Não te quero também


SOU

Eu sou o vento
Eu sou a brisa
Eu sou o norte
Lua, nua
Sou mulher
Sou a sem sorte.



A MENINA DANÇA

Dança menina feia desbotada na parede
Canta a infância roubada:
Do you one dance?
Qual mariposa embriagada pela luz
Espatifa-se na vidraça
Não encontra eco:
"Do you love me?"
Encontra egos distorcidos de luxúria
Não chove
E o sexo confunde-se com o Rock
Rasgaram-lhe a bandeira vermelha
“Só a infância presente existe!"
Dança, canta, rodopia:
Sua infância presente
Roubada
Espatifada
Distorcida
Sonhou num dia de chuva ser princesa
Ousou beijar o vento
Perdeu-se na tempestade
Acordou tarde demais



CONFISSÃO

Sala, madrugada fria, onde as falas se perdem
Na noite quase perfeita da imaginação
Trêmulo corpo sob o branco pijama
Denúncia de um querer
Formas elásticas de coxas e de seios
Trazem a certeza do impossível resgate
Janela estendida no céu
Desnudada pelo vento do silêncio
Serena à noite o orvalho que a desperta
Quisera, por uma noite, ser Ceci
Para amanhecer
Nos braços do poeta


NO GUETO

No gueto da solidão alimenta-se de migalhas
Que não são pra ela
Tola, tosca, destruída pelo tempo
A espera do que não é seu
Revira o lixo deixado pelas damas da noite
Procurando algo de bom
Odor de gozo exala das vilas, ruelas
Ao som de um blues
E o cão vagabundo, devasso, saciado
Não enxerga a onça pintada
"E era um cão vagabundo e uma onça pintada"
Que não se amaram na praça
Perderam-se nos seus mundos
Submundos.



PRESERVAÇÃO

Guardei-me de te querer
Te tocar, te sentir
Não só por covardia
Foi numa tentativa insana
De preservar
O que há de bom em ti
Não recebi o bilhete azul
Quando vim ao mundo
Tenho sorte no jogo
Azar o meu
Ficarei a contar dias e luas
Os amigos me trarão notícias tuas
E..., guardada de ti
Continuarei minha existência
Onde as humanidades
São deixadas do lado de fora

MEU SILÊNCIO

No tempo, vozes do vento,

Que dizem que vale a pena

Flores também murcham

Os rios não voltam

E a cada manhã o sol vem

A lua nos consola da escuridão

Ilumina a terra com prata

Enquanto o orvalho molha o chão

Pense, vale a pena.

Não precisa andar sobre o mar

Basta sorrir e continuar

E olhar para o horizonte

Essa dança será minha

E meu silêncio terá um nome

E o que eu preciso estará lá

Mesmo que eu não o toque

Mesmo que não me veja

Ele estará lá, eu sei.

Vou abraçá-lo com os olhos

E dizer-lhe num silêncio mudo

Que meu anjo é real

Que nas noites sem lua

Ele vem me embalar

E lembrar-me

Que as flores murcham

Os rios não voltam

E existem outras formas de amar.



HISTÓRIA DE AMOR

Contemos uma história de amor Palavras digitadas sem reservas
Neste perfil por nós compartilhado
De mensagens postadas e secretas
Escrevamos uma história de amor
Quem sabe seu desfecho incerto
Um amor que grita em silêncio
E sobre o teclado suspira liberto
Não nos concebe nenhum entretanto Amor que se alastra em campo aberto
Avança pela noite em tons e bytes
Envolve nesta rede amantes ternos





MORMAÇO

Gemer de ventiladores, amadores do vento.

Mormaço do dia, da vida, da alma.

Dia cinzento e quente como asfalto

Um gato escondido no armário,

Mudo, censura a minha falta de tempo.

Ranger de porta desperta os sentidos

O mundo acordado reclama atenção

E eu, mormaço, nauseada de tudo,

Sonho com assaltos, medos, mortos,

Planto-me, qual árvore, frondosa solidão.

Qual ostra fora d’água

Ressecada, vazia de brilho.

Escrevo, vomito e expurgo,

Palavras, num mágico papel,

Em falenas virtuais me diluo.

O gato mudo,

Ainda escondido,

Censura minha falta de tempo.

VESTIDA DE SOL

Hoje me vesti pra você
Com brincos de princesa
Saia da cor do meu querer
De puro carmesim
Calcinha de renda
Com um toque de pureza
Pus perfume de jasmim
Hoje me arrumei pra você
Cada cacho do cabelo
Bem enrolado no espelho
Dei um toque de amor
Como cachos de uvas,
Gotas de chuva
Moldurando meu rubor
Hoje me aprontei pra você
Botei meias de seda
Sapatos de bailarina
Laços de fita num corpete de organdi
Invocando a esperança primeira
Vim pra dizer toda faceira
Não chore...
Mesmo que chova
Não chore...
Eu trouxe o sol pra você

Nádia de Souza


ARCO ÍRIS FUTURO

Sol, chuva, dias, horas,

Passam os tempos, passam os ventos,
E a moça desbotada na janela
Perde-se na linha do horizonte.

Onde estendeu sua esperança,
Seu desejo de ser mulher.
Folhas caem, é outono,
O frio do inverno já chegou.
Congelando pensamentos,
Sentimentos de pretextar um amanhã. Janela tosca, torta, turva,
Moldura arcaica em arco;
Íris dum olhar.
Janela d’alma, olhar distante,
Infinito inalcançável:
Encontrar o amor.
Moça tosca, na janela, desbotada,
Estende no arco íris o futuro.
Sol que entra janela aberta
Dissolvendo anseios,
Esquentando coração.
Batem as horas, dia e noite.
Moça desbotada
Pinta os lábios de baton.